Ódio
A pouco descobri o ódio.
Engraçado que foi justamente pelo ódio que percebi o amor.
Passei tempos imemoráveis defendendo o amor como a bandeira da nova vida. Amor é a Lei… amor isso, amor aquilo… E não entendia o amor. Cruelmente o meu espelho se mostrava tão óbvio que eu não queria acreditar.
Um dia desses, descobri que tudo na vida é a busca pelo amor… Fiquei estarrecida, tudo o que eu pensava acabava em um pedido de amor… percebi que vivia um constante monólogo curto e nada criativo, que se resumia em…”Me ame!”.
Se eu te procuro, estou dizendo …Me ame.
Se eu te nego eu estou dizendo …Me ame… Me ame o tempo todo… Achei ter descoberto a pólvora.
Oh! como sou inteligente… tudo é uma questão de amor…
Me enganei.
Não era o amor que me motivava e sim o ódio. Já que era incapaz de odiar o outro eu achava que não tinha sentido esse sentimento ultrapassado… Eu não.
E engoli os maiores absurdos sempre justificando que era por amor… Você me despreza… É a sua maneira de me pedir… Me ame. E eu te amava.
Você me humilha… É amor… E eu te amava.
Fui vivendo esse “amor” até que um dia lendo um texto de Sarah Kane fiquei catatonica ( me perdoem os partidários da não catatonia e dos “pós” moderno, literário, dramático… tudo em geral…) sim, catatonica.
No texto não existe a menor possibilidade de redenção.
E por não existir redenção eu encontrei a minha. Ainda há tempo. Difícil admitir que a partidária do amor, vivia o ódio vestido de “amor incondicional”. Eu sempre achei que o amor era incondicional, que devia aceitar as pessoas como elas são ( tem até música … as pessoas como elas são) e descobri que toda essa minha pasmaceira emocional, esse sangue de barata era na verdade um profundo, arraigado e desconhecido ódio.
O ódio por mim mesma… Percebi o quanto eu menti pra mim esse tempo todo.
Onde eu dizia eu te amo assim como você é, eu estava dizendo, na verdade, eu me odeio e você é a ferramenta da minha própria punição.
Tão difícil admitir isso, tão difícil explicar o quanto isso modificou meu universo.
E antes que eu não tivesse nenhuma possibilidade de redenção, eu optei por mim. Vou me amar nem que seja na porrada! Vou me amar nem que pra isso eu tenha que me amarrar no pé da cama pra não correr em busca de uma nova humilhação. Vou me amar e pronto.
Posso nao saber o que é amor, mas já sei o que é ódio.
Já é um começo …

Sinceramente, cada vez mais me convenço que o romantismo matou o amor. Ficou esse ranço idiota do amor incondicional que a tudo vence, que por tudo se sacrifica e blablabla. Não é à tôa que os românticos morreram quase todos antes dos 30 anos e de maneiras estúpidas. Mais sensato foi o LaVey que dizia ser o amor uma coisa preciosa demais para ser dado a qualquer um. Ou os gregos, que bem entenderam que existem várias formas de amor e que tratá-las como a mesma coisa é caminho certo para se dar mal.
Fora o quê, como é possível amar alguém quando não se ama a única criatura que importa nesse mundo: você mesmo? Você tem razão, se você não se ama toda forma de “amor” vira apenas uma carência mal disfarçada.
Somos mesmo criaturas ridículas.
é ursinho… somos ridículos… sábias palavras… saudades.